
A Resenha ontem esteve no Bairro de Botafogo. Quintal cheio, grelha acesa e mesa farta. Churrasco, como manda a tradição do adversário gaúcho, mas com adaptações locais: saiu o chimarrão, entraram a cerveja gelada e a Coca-Cola. Em volta da TV, só botafoguense. Nenhum infiltrado. Nenhum inocente.
A carne ainda estava no ponto quando o Botafogo abriu o placar. Arthur Cabral fez 1 a 0, e no quintal surgiu aquela velha armadilha emocional do torcedor: confiança. Todo mundo acreditando além do razoável.
— Pra cima, Fogão! — gritou Samuel Pinheiro, ainda na fase otimista da noite.
— Um gol pra dar confiança no nosso centroavante… — completou, antes de o futebol cobrar a conta.
O Grêmio empatou com Carlos Vinícius. Goleador.
— Ele é goleador — resmungou alguém, sem surpresa.
O Botafogo respondeu. Danilo, após uma jogada perfeita de Montoro, voltou a colocar o time na frente. Passe açucarado, finalização precisa. 2 a 1. Intervalo se aproximando. Cerveja gelada. Esperança renovada.
— Dá pra controlar — alguém arriscou.
Não dava.
O segundo tempo começou e o Botafogo simplesmente desapareceu. Em oito minutos, o Grêmio marcou três gols. Três. O churrasco virou tribunal.
— Avenida Mateo Ponte tá aberta — disparou Rodrigo Barreto, sem levantar da cadeira.
— Ponte de zagueiro não tem como — reforçou Renato Amarelo.
— O Telles deu mole com a mão pro alto — veio do fundo do quintal.
— Time morto — sentenciou Heleno Bugler, seco, sem apelação.
O pênalti, os lados expostos, a desorganização defensiva e o banco curto vieram juntos, tudo ao mesmo tempo.
— Tomar três gols em dez minutos parece pelada — alguém jogou no ar.
— O time apagou — disse Josimar Henrique.
— Vergonha — resumiu Rodrigo Barreto, já sem paciência.
O Botafogo ainda tentou reagir. Barrera acertou a trave.
— Se mete esse gol, volta pro jogo — ainda houve quem acreditasse.
Não voltou.
O segundo gol de Danilo, um voleio bonito, saiu depois dos quatro gols do Grêmio, quando a partida já estava praticamente definida. Um gol para a súmula, não para a esperança.
— Pelo menos não desistiu — ponderou Cristóvão Oliveira, tentando salvar algo da noite.
— O time morreu — respondeu Heleno, sem negociação.
O 5 a 3 não foi acidente. Foi retrato. Elenco curto, improvisações defensivas, desgaste mental e um modelo que ainda depende de reforços.
— Quando esse transfer ban começar a incomodar de verdade, a gente paga — ironizou alguém, já pensando no que vem pela frente.
O churrasco acabou, a carne sobrou. O jogo não.
No domingo, o Botafogo enfrenta o Vasco, em São Januário, pelo Campeonato Estadual. Clássico não aceita explicação, só resposta.
Na sequência, pelo Brasileirão, o reencontro será com o Fluminense, no Maracanã, pela 3ª rodada.
Porque no futebol — e no quintal — todo botafoguense sabe:
quando a corneta vira silêncio, o problema é sério.
Foto destaque: Montoro. Gremio x Botafogo pelo Campeonato Brasileiro (Reprodução/Vitor Silva/Flickr/Botafogo F.R.)




