
Jefferson Savarino foi um dos personagens centrais da histórica temporada do Botafogo em 2024. Autor da assistência que ficará marcada na memória do torcedor alvinegro na vitória contra o PSG — então campeão da Champions League e adversário do clube que ostentava o patch de campeão da Libertadores —, o venezuelano teve papel decisivo em um dos anos mais marcantes da história recente do clube.
A chegada ao Botafogo
Savarino chegou ao Botafogo em janeiro de 2024, adquirido por US$ 2,7 milhões. À época, foi a segunda contratação mais cara da história do clube, atrás apenas de Patrick de Paula, contratado em 2022. A movimentação foi vista como uma resposta direta de John Textor à torcida, após a perda do título do Campeonato Brasileiro de 2023, competição que o clube liderou por 33 rodadas.
O contexto não era simples. Havia pressão interna e externa, questionamentos sobre o comando técnico e pedidos da torcida por mudanças profundas no elenco. Ainda assim, Savarino rapidamente se impôs. Mesmo em meio à instabilidade, o venezuelano mostrou personalidade e qualidade técnica. Com as chegadas de Luiz Henrique, em fevereiro, e de Igor Jesus e Thiago Almada, em julho, formou-se o chamado “quarteto mágico”.
O resultado foi uma temporada histórica. Em 55 jogos, Savarino alcançou números inéditos em sua carreira: 14 gols e 12 assistências, consolidando-se como um dos principais nomes da campanha e eternizando seu nome na galeria de ídolos do clube.
2025: crise, bastidores e incertezas
O ano de 2025 começou com cenários opostos. Enquanto o Botafogo celebrava conquistas no Brasil, a França vivia uma grave crise financeira no Lyon, clube também pertencente à holding Eagle Football. A situação levou John Textor a reorganizar ativos do grupo.
Thiago Almada foi transferido para o Lyon, Luiz Henrique vendido ao Zenit, e Igor Jesus negociado com o Nottingham Forest após o Mundial de Clubes. Nos bastidores, surgiram informações de que Savarino também teria um acordo para se transferir ao clube francês no meio do ano — fato nunca confirmado oficialmente.
O plano, porém, foi interrompido quando o Lyon teve suas contas reprovadas pelo DNCG, órgão regulador financeiro do futebol francês, que decretou o rebaixamento administrativo do clube. A reação foi imediata: Textor foi afastado do comando da holding, Michele Kang assumiu o controle, aportou cerca de €100 milhões e livrou o clube da punição.
Nesse período, Savarino demorou a se reapresentar no início da temporada. Em meio a homenagens feitas pela torcida a outros jogadores importantes do elenco, seu nome passou despercebido. O reencontro simbólico veio pouco depois: contra o Fluminense, pelo Campeonato Carioca, no Nilton Santos, Savarino marcou o gol da vitória por 2 a 0, tirou a camisa e a exibiu à torcida, em gesto que reforçou sua identificação com o clube. Meses depois, na despedida do goleiro Gatito Fernández, a torcida alvinegra exibiu um bandeirão em homenagem ao venezuelano.
A saída em meio à asfixia financeira
Com a grave situação financeira da Eagle Football afetando diretamente o Botafogo — incluindo atrasos de FGTS por quase três meses — o clube foi novamente obrigado a negociar seus principais ativos.
Marlon Freitas foi o primeiro a sair, em uma venda considerada positiva: US$ 6 milhões por um jogador de 30 anos que havia chegado sem custos. Pouco depois, Savarino foi negociado com o Fluminense por US$ 7,5 milhões.
Um negócio de múltiplas leituras
Savarino demonstrou interesse em permanecer. Recusou propostas do futebol árabe e da Turquia, optando por continuar no Rio de Janeiro, onde sua família já estava adaptada. Recebeu aumento salarial, ampliação contratual e manteve-se próximo de um grupo de jogadores com quem tinha forte ligação pessoal.
Para o Fluminense, o negócio representou a chegada de um jogador experiente, campeão e motivado, especialmente por deixar um clube no qual se sentiu descartado. Para o Botafogo, houve alívio na folha salarial, lucro financeiro e a aquisição de uma promessa das categorias de base do rival.
Para o torcedor, no entanto, o sentimento foi mais complexo. Pouco tempo após retirar o nome de Marlon Freitas do canto que celebrava a conquista no Monumental e incluir o de Savarino, ver o venezuelano vestindo a camisa do rival trouxe frustração. Ainda assim, a história do clube mostra que o tempo costuma amenizar feridas — como ocorreu em casos emblemáticos do passado.
O que poderia ter sido com Martín Anselmi
A chegada de Martín Anselmi levanta uma questão inevitável: como Savarino se encaixaria em seu modelo de jogo?
Anselmi não utiliza um camisa 10 clássico, mas prioriza meias interiores, jogadores capazes de atuar entre linhas, ocupar meio-espaços, chegar à área e decidir. Exatamente o papel que Savarino exerceu em seu melhor momento no Botafogo, já distante da função de ponta tradicional.
Nesse contexto, o venezuelano teria encaixe quase natural como meia-atacante em sistemas como o 3-4-2-1, oferecendo criatividade, último passe e chegada ofensiva — características que fizeram dele um dos grandes nomes de 2024.
Savarino no reencontro com o passado
Neste domingo, Jefferson Savarino estará em campo contra o Botafogo, no Estádio Nilton Santos, em partida válida pelo Campeonato Carioca. Será o primeiro reencontro do venezuelano com a torcida alvinegra desde sua saída, agora vestindo a camisa do rival, em um confronto que carrega peso esportivo e simbólico.
Botafogo e Fluminense chegam empatados na pontuação, brigando pelas primeiras posições da tabela, o que adiciona ainda mais tensão ao duelo.
Pontuação e classificação no Campeonato Carioca
Após as primeiras rodadas do Estadual, Botafogo e Fluminense somam 9 pontos, ocupando as primeiras colocações da competição, separados apenas pelo saldo de gols. O clássico deste domingo pode definir a liderança isolada do campeonato.
Clássico Vovô: mais que um jogo
Botafogo e Fluminense protagonizam o Clássico Vovô, reconhecido como o mais antigo das Américas, disputado desde 1905. Mais do que títulos ou campanhas momentâneas, o confronto carrega a memória viva de gerações, ajudou a moldar o futebol brasileiro e mantém sua relevância justamente pela longevidade e intensidade da rivalidade.
Neste domingo, no Nilton Santos, passado e presente se encontram. Para Savarino, será mais um capítulo de uma história que, independentemente da camisa, já está escrita na memória do futebol carioca.
Os jogadores passam. A história fica. E Savarino, sem dúvida, já faz parte dela.
Foto destaque: Mosaico para Savarino dos torcedores do Botafogo (Reprodução: Bárbara Mendonça/Instagram/@Botafogo)




