
A história do entre 1968 e 1995 é daquelas que parecem roteiro de cinema.
Em pouco mais de duas décadas, o clube viveu praticamente todos os sentimentos que o futebol pode proporcionar: o brilho de uma geração extraordinária, a turbulência política e institucional, uma profunda crise financeira, a perda de seu patrimônio, um longo jejum de títulos, uma reconstrução improvável e, finalmente, a volta ao topo do futebol brasileiro.
Foram anos de sofrimento, resistência e paixão. Uma história que ajuda a explicar por que a Estrela Solitária jamais deixou de brilhar.
1968: o auge da "Selefogo"

O ano de 1968 pode ser considerado um dos pontos mais altos da história do Botafogo.
Sob o comando de Mário Jorge Lobo Zagallo, o Alvinegro reunia jogadores que marcaram época, como Gérson, Jairzinho, Paulo Cézar Caju, Roberto Miranda, Carlos Roberto, Valtencir e Sebastião Leônidas.
Era tanta qualidade que a equipe ganhou um apelido que entrou para a história: "Selefogo".
Em uma partida contra a Argentina, no Maracanã, a Seleção Brasileira chegou a contar com oito jogadores do Botafogo entre os titulares e venceu por 4 a 1. O quarto gol ficou marcado pela impressionante troca de passes que antecedeu a conclusão da jogada.
Dentro de campo, o Botafogo também viveu um ano histórico, conquistando o Campeonato Carioca e a Taça Brasil de 1968, consolidando uma geração que já era tratada como uma das grandes forças do futebol brasileiro.
A tensão fora de campo
Mas 1968 também foi um ano de tensão fora das quatro linhas.
Em 20 de junho, durante as manifestações estudantis contra a ditadura militar, estudantes buscaram abrigo nas dependências de General Severiano.
A sede do clube acabou invadida por forças de segurança, em um episódio marcado por bombas de gás lacrimogêneo, tiros para o alto e agressões.
O episódio ocorreu às vésperas da chamada Sexta-Feira Sangrenta e ficou registrado na história do clube como um dos momentos mais turbulentos de sua trajetória.
O Botafogo ainda vivia o auge dentro de campo, mas começava a entrar em um período de enormes dificuldades institucionais e financeiras.
Década de 1970: quando a crise bateu à porta
Depois da conquista da Copa do Mundo de 1970, os jogadores alvinegros que faziam parte da Seleção Brasileira passaram a ser ainda mais valorizados.
O problema é que, nos bastidores, as contas do clube começavam a pesar.
A chamada Operação 63, envolvendo empréstimos internacionais contratados em dólares, tornou-se um dos símbolos da crise financeira que atingiu o Botafogo.
Com o choque do petróleo de 1973 e a forte valorização do dólar, as dívidas cresceram de maneira significativa.
O patrimônio que representava parte da identidade alvinegra acabou entrando no centro dessa crise.
Em 1976, durante a gestão de Charles Borer, o Botafogo vendeu a histórica sede e o estádio de General Severiano para a Companhia Vale do Rio Doce. As atividades do clube foram transferidas para Marechal Hermes.
Era uma mudança que simbolizava muito mais do que a perda de um endereço. Era a perda de uma parte importante da identidade do Botafogo.
O "Time do Camburão"

Mesmo em meio às dificuldades, alguns momentos permaneceram na memória do torcedor.
Entre 1977 e 1978, o chamado "Time do Camburão" alcançou uma impressionante sequência de 52 partidas de invencibilidade.
Anos depois, em 1981, o Botafogo chegou às semifinais do Campeonato Brasileiro, tendo Mendonça como um dos grandes nomes daquela equipe.
Mas o clube continuava distante dos grandes títulos.
O Botafogo precisava se reencontrar.
Emil Pinheiro e o fim de 21 anos de espera

O reencontro começou a ganhar forma na segunda metade dos anos 1980.
Entre 1987 e 1992, Emil Pinheiro tornou-se uma figura central na reconstrução do futebol alvinegro.
Patrono do departamento de futebol, participou da montagem de equipes que devolveram ao Botafogo a condição de protagonista no futebol carioca.
Jogadores como Mauro Galvão, Paulo Criciúma e Marinho chegaram ao clube, e a torcida voltou a sonhar.
O sonho virou realidade em 1989.
Na decisão do Campeonato Carioca contra o Flamengo, Maurício marcou o gol que entrou para a eternidade na memória alvinegra.
Botafogo campeão.
E, mais importante do que a taça, o fim de uma espera que parecia interminável: 21 anos sem conquistar um título de expressão.
A conquista veio de maneira invicta e devolveu ao torcedor o orgulho de comemorar um grande título.
No ano seguinte, o Botafogo repetiu a dose.
Em 1990, veio o bicampeonato carioca.
O sucesso dentro de campo fortaleceu Emil Pinheiro politicamente, e ele acabou eleito presidente do clube para o triênio 1991–1993.
Mas a história, mais uma vez, teria uma curva inesperada.
1992: o vice-campeonato brasileiro e uma nova crise
O Botafogo chegou à decisão do Campeonato Brasileiro de 1992 contra o Flamengo.
A campanha havia recolocado o clube entre os protagonistas do futebol nacional, mas a decisão terminou com o rival levantando a taça.
O episódio também ficou marcado pela polêmica envolvendo o atacante Renato Gaúcho, afastado após a primeira partida da final.
Pouco tempo depois, desgastes internos e denúncias envolvendo a administração do clube contribuíram para a saída de Emil Pinheiro da presidência.
Em novembro de 1992, Emil renunciou.
O elenco milionário foi desmontado e o Botafogo voltou a enfrentar uma realidade conhecida: poucos recursos, dificuldades financeiras e a necessidade de reconstruir praticamente tudo novamente.
1993: "Nosso time não tem craques, mas tem vergonha na cara"

Se 1989 representou o fim do jejum, 1993 foi a prova definitiva de que o Botafogo sabia sobreviver às adversidades.
O clube iniciou aquele ano em situação financeira delicada.
Sob a presidência de Mauro Ney Palmeiro, o futebol precisou apostar em jogadores jovens e em atletas menos badalados.
No comando técnico estava um personagem que conhecia profundamente o peso da camisa alvinegra: Carlos Alberto Torres, o Capita.
A equipe não tinha o glamour dos grandes elencos do passado.
Mas tinha algo que o treinador considerava indispensável: disposição para lutar.
A conquista da Copa Conmebol
Na Copa Conmebol de 1993, o Botafogo passou por Bragantino, Caracas e Atlético Mineiro até chegar à grande decisão contra o tradicional Peñarol, do Uruguai.
No primeiro jogo da final, em Montevidéu, empate em 1 a 1.
Na volta, no Maracanã, novo empate, dessa vez por 2 a 2.
A decisão foi para os pênaltis.
E foi aí que apareceu William Bacana.
O goleiro alvinegro brilhou nas cobranças e o Botafogo venceu por 3 a 1, conquistando a Copa Conmebol de 1993, primeiro título internacional oficial do clube.
A campanha entrou para a história principalmente pelo espírito daquela equipe.
Carlos Alberto Torres resumiu o sentimento em uma frase que ficou eternizada:
"Nosso time não tem craques, mas tem vergonha na cara."
Naquele momento, o Botafogo mostrou que não precisava ter o elenco mais caro ou os nomes mais badalados para competir.
Precisava ter alma.
1995: a Estrela Solitária volta a brilhar no Brasil

A reconstrução iniciada nos anos anteriores encontraria seu grande capítulo em 1995.
O Botafogo já havia retomado sua casa em General Severiano e voltava a construir uma identidade forte dentro e fora de campo.
Sob a presidência de Carlos Augusto Montenegro e com Paulo Autuori no comando técnico, o Alvinegro montou uma equipe equilibrada.
E havia um personagem destinado a virar ídolo:
Túlio Maravilha
Artilheiro, irreverente e dono de uma personalidade que combinava perfeitamente com o jeito alvinegro de ser, Túlio virou o rosto daquela campanha.
Ao seu lado estavam jogadores importantes como Wágner, Gonçalves, Sérgio Manoel, Beto e Donizete "Pantera".
O Botafogo fez uma campanha consistente no Campeonato Brasileiro e chegou à decisão contra o Santos.
No primeiro jogo, no Maracanã, vitória alvinegra por 2 a 1.
Restava a última batalha.
17 de dezembro de 1995
Botafogo e Santos se encontraram no Pacaembu.
O empate em 1 a 1 foi suficiente para colocar a taça nas mãos do Glorioso.
E o gol que ajudou a escrever aquela história tinha nome e sobrenome:
Túlio Maravilha.
O Botafogo era novamente campeão brasileiro.
Da crise à glória
Entre 1968 e 1995, o Botafogo percorreu um dos capítulos mais intensos de sua história.
1968: a Selefogo, dona de uma geração extraordinária.
Anos 1970: a crise, as dificuldades financeiras e a perda de General Severiano.
1989: o fim do jejum.
1990: o bicampeonato carioca.
1993: a conquista continental com uma equipe que carregava a camisa e a alma do clube.
1995: a volta ao topo do futebol brasileiro.
Foram 27 anos entre a glória nacional de 1968 e a conquista de 1995.
Duas gerações diferentes.
Duas equipes diferentes.
Mas a mesma estrela no peito.
Porque a história do Botafogo não é feita apenas de taças.
É feita também de resistência.
De quedas e recomeços.
De jogadores que entraram para a eternidade e de outros que, mesmo sem o mesmo talento, entenderam o peso de vestir a camisa alvinegra.
De Garrincha a Túlio, de Gérson a Sérgio Manoel, de Jairzinho a Donizete, a Estrela Solitária continuou encontrando maneiras de voltar a brilhar.
E talvez seja justamente essa a essência do Botafogo:
quando todos pensam que a história acabou, o Glorioso encontra forças para começar de novo.
Resenha do Bairro
Por João Clovis
Foto




