
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
— Carlos Drummond de Andrade
Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra.
Desde que soube quem seria seu adversário, no mês passado, o Botafogo sabia que subiria uma montanha — e pelo que vimos, falhou na preparação. A noite de 20 de agosto apenas confirmou o que muitos já percebiam: o Botafogo é a própria pedra em seu caminho.
Em uma noite de pouca inspiração, o Botafogo venceu o Cienciano por 1 a 0 no Estádio Nilton Santos. Arthur Cabral, Danilo e Vitinho foram os jogadores mais criticados pela torcida; o centroavante foi vaiado quase no final do jogo, Danilo foi alvo de protestos ao ser substituído e Vitinho era cornetado a cada cruzamento errado.
🔁 As eliminações: um padrão que se repete
O Botafogo já conhecia amargas eliminações nesta temporada. Em março, caiu em casa para o Barcelona de Guayaquil, após perder a ida no Equador e precisar de uma vitória por dois gols de diferença — acabou empatando. Em maio, já sob o comando de Franclim Carvalho, foi eliminado pela Chapecoense, então lanterna do Brasileirão. Venceu em casa por 1 a 0 com gol nos últimos minutos, mas logo cedeu a vantagem na volta e perdeu por 2 a 0 em Santa Catarina.
A pedra era difícil de superar, mas a má preparação para os jogos pesou. Para a partida de volta, em que precisava marcar cinco gols para levar a decisão aos pênaltis, o time teve apenas dois dias de treino após viagens consecutivas a Cusco e Salvador. Franclim, que já estava com os dias contados no clube, dirigiu o primeiro treino, montou o plano de jogo, exibiu vídeos e trabalhou taticamente — mas foi demitido na noite de terça-feira. O técnico interino Rodrigo Bellão assumiu com pouco tempo, montou um losango no meio-campo e só teve um treino para ajustar a equipe.
⚽ Formação escalada
Com pouco espaço de tempo, Bellão levou a campo:
Warleson (Gabriel Batista), Vitinho, Justino, Ferraresi e Alex Telles; Huguinho (Júnior Santos), Medina (Edenílson), Montoro e Danilo Santos (Matheus Martins); Danilo Pereira (Kadir) e Arthur Cabral.
🕹️ O jogo: frustração, polêmicas e eliminação
Diversos elementos irritaram a torcida: gols perdidos por Arthur Cabral e Vitinho, atuações abaixo do esperado e uma arbitragem cheia de reviravoltas. O árbitro chegou a validar um gol, marcar um pênalti e expulsar Ferraresi — mas todas as decisões foram anuladas pelo VAR. A substituição de Danilo Pereira e a permanência de Arthur Cabral em campo foram motivos de vaias dos mais de 22 mil torcedores que acreditavam na virada histórica.
O Botafogo terminou com 22 finalizações e 69% de posse de bola, mas apenas três grandes chances. Aos 8 minutos, Danilo Pereira abriu o placar após assistência de Montoro. Aos 22, Danilo Santos balançou as redes, mas o gol foi anulado por toque de mão na área — mesmo enredo visto no Peru, quando a arbitragem beneficiou o time da casa. No fim do primeiro tempo, Holding entrou de forma dura, atingiu Warleson e causou 15 pontos de pontos no queixo do goleiro, que precisou ser substituído por Gabriel Batista. O jogador adversário não foi punido.
Aos 50 minutos, Alex Telles foi derrubado na área, mas o pênalti foi anulado por impedimento de Júnior Santos no início da jogada. Aos 98 minutos, Ferraresi foi expulso após desarme em Robles, mas a decisão também foi derrubada pelo VAR. A arbitragem foi, sem dúvida, a grande protagonista — e vilã — da noite.
🚪 Saídas: despedidas e vendas
Matheus Martins confirmou que a partida foi sua última com a camisa alvinegra. O atacante se transferiu para o Dínamo Moscou, em negócio que deve render quase 8 milhões de euros aos cofres do Botafogo. Segundo o jornalista César Luis Merlo, o clube também encaminhou a venda do meia-atacante uruguaio Santiago Rodríguez ao Columbus Crew, dos Estados Unidos, com os detalhes finais sendo acertados.
🏆 O Craque do Bairro:

A torcida alvinegra, que apoia sempre que pode, vem sofrendo ao longo do ano com decisões administrativas questionáveis do clube. Vê seus jogadores irem embora, mas não abandona o time. Ontem 22.408 torcedores tentaram empurrar o time para a virada histórica.
👎 O Bagre do Bairro:

Arthur Cabral teve uma atuação muito abaixo do esperado. Visivelmente fora de forma, o atacante luta contra dores lombares e joga com infiltrações para suportar o desconforto. O sistema de jogo também não o favorece: os laterais não cruzam com qualidade e os meias insistem em jogadas de velocidade, que não são suas características. Ainda assim, ele acabou impedindo o que poderia ter sido o segundo gol de Danilo Pereira.
📅 Próximos desafios
- 🗓️ 25/08 — Botafogo x Athletico Paranaense (Nilton Santos, 2º colocado no Brasileirão)
- 🗓️ 30/08 — Flamengo x Botafogo (Maracanã, o Rubro-Negro está na vice-liderança na competição)
- 🗓️ 06/09 — Botafogo x Palmeiras (Nilton Santos, líder do campeonato)

A pedra no caminho não é apenas a arbitragem, não é só o adversário. A pedra — grande, pesada e teimosa — está dentro de casa. É a falta de preparação, a instabilidade técnica, as escolhas questionáveis e o futebol que não consegue fluir mesmo com a posse de bola. Enquanto o Botafogo não remover essa pedra, as montanhas continuarão altas demais para escalar. A torcida segue, firme, mas a paciência — assim como as chances — está acabando. É hora de virar o jogo. Antes que seja tarde demais.




