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Essa semana tivemos mais uma convocação de Carlo Ancelotti para a Seleção Brasileira de Futebol e algo que já chamava minha atenção há algum tempo saltou aos olhos: os laterais.
Desde Daniel Alves, Marcelo, Maicon e Filipe Luís, não temos laterais que sejam do agrado da exigente torcida canarinho e, por muitas vezes, a formação de jogadores nessas posições é colocada em xeque. Mas será que o problema é mesmo a formação?
Façamos um exercício considerando somente a lateral direita, que me parece mais problemática do que a esquerda. Se pensarmos nos laterais direitos dos quatro primeiros colocados do Campeonato Brasileiro: Flamengo, Palmeiras, Cruzeiro e Botafogo, vemos uma predominância de nomes brasileiros: Enquanto o Fla reveza entre o uruguaio Varela e o brasileiro Emerson Royal, nos outros três há uma titularidade clara de jogadores nacionais: Khellven no Palmeiras, Willian no Cruzeiro e Vitinho no Botafogo. Todos cumprindo muito bem o seu papel, sem serem considerados o "elo mais fraco" de seus times.
Vamos mais longe e analisemos os laterais direitos dos campeões das últimas edições da Libertadores da América, vencida somente por equipes brasileiras desde 2019: Em 2024, o Botafogo venceu com Vitinho, em 2023 o Fluminense levou com Samuel Xavier, em 2022 foi a vez do Flamengo vencer com Rodinei na posição, em 2021 o Palmeiras foi o campeão com Mayke na direita, em 2020 o mesmo Palmeiras, dessa vez com Marcos Rocha como titular e, finalmente, em 2019, o Flamengo venceu com Rafinha na lateral. Todos brasileiros e peças fundamentais nos títulos.
Podemos concluir então que há laterais direitos sendo formados para suprir o mercado nacional, que desde a virada do século, vem se distanciando do nível exigido mundialmente e, por consequência, na Seleção Brasileira. E é aí que o caldo entorna!
Já há, pelo menos, 20 anos, os jogadores da Seleção são formados na Europa, sendo que vários deles sequer tiveram passagem marcante pelo campeonato local. São os casos de Raphinha, Marquinhos, Matheus Cunha, Gabriel Magalhães e vários outros. O que não seria um problema, não fosse um pequeno detalhe: Os times europeus não estão minimamente preocupados em formar jogadores para nenhuma seleção.
A cadeia alimentar do futebol mudou drasticamente neste século, e parece que os dirigentes brasileiros não acompanharam essa mudança. Hoje em dia, os gigantes europeus são mais importantes para os jogadores e torcedores do que as seleções e, por sua vez, esses times se tornaram completamente autossuficientes, não dependendo em nada dos selecionados nacionais. Essa mudança exige algo que nós, aqui no Brasil, nunca tínhamos visto antes: Um projeto de futebol na Seleção.
Historicamente, nós sempre enxergamos a Seleção Brasileira como um "prêmio" para a atuação do jogador no clube. A "amarelinha" era a união dos melhores entre os melhores e nunca foi preciso que a Seleção formasse o jogador para atuar por ela, como vemos geralmente nos clubes. Eles sempre vinham prontos e cheios de vontade de "representar o país". Isso mudou e já faz tempo.
Desde Daniel, Marcelo, Filipe e Maicon, absolutamente protagonistas em Barcelona, Real Madrid, Atlético de Madrid e Inter de Milão, respectivamente, nunca mais um jogador dessas posições se destacou em um gigante europeu. Diante disso, o que fizeram os treinadores brasileiros neste período? Esperaram pacientemente que alguém se destacasse para assumir de vez a posição na Seleção, o que nunca mais aconteceu. Essa é uma postura bastante arcaica (além de extremamente arrogante).
Todas as outras seleções entenderam antes de nós que não dá para esperar alguém se destacar no clube para montar um time forte, é preciso planejar como vai jogar e convocar jogadores que cumpram as funções necessárias, para aí sim transformá-los em jogadores de Seleção.
Usemos como exemplo a Seleção Argentina, atual campeã do mundo. Se olharmos para o meio-campo usado na final da Copa de 2022 (Enzo Fernandez, Rodrigo De Paul e Alexis Mac Allister) veremos três jogadores que tiveram em suas carreiras passagens emblemáticas por grandes equipes da Europa: Enzo no Chelsea, De Paul no Atlético de Madrid e Mac Allister no Liverpool, mas quando Scaloni iniciou o projeto que culminou no título mundial, Enzo atuava pelo Benfica, De Paul pela Udinese e Mac Allister pelo Brighton. Esses jogadores, mesmo antes da fama que teriam no futuro, foram escolhidos pelo treinador argentino por aquilo que poderiam entregar tática e tecnicamente para o time, mesmo sem serem grandes estrelas do futebol mundial, algo impossível de imaginar acontecendo na Seleção Brasileira.
Essas apostas em jogadores desconhecidos, mas que podem acrescentar ao projeto, não são exclusividade dos Hermanos. Temos também o exemplo de Mateo Retegui, centro-avante italiano, nascido na Argentina, que estreou pela Azzurri quando ainda era jogador do Boca Juniors (e nem titular indiscutível era).
Retegui foi convocado pela primeira vez em 2023, quando o treinador ainda era Luciano Spalletti, pelas ausências de vários jogadores da posição. Treinou bem, jogou bem e continuou sendo convocado. Hoje é fácil defender o agora jogador da Atalanta e artilheiro da última Seria A, mas a aposta foi feita lá atrás.
Essa postura, de convocar jogadores que cumpram a função ao invés de transformar a Seleção em um prêmio para o bom rendimento no campo é inédita, mas parece estar começando (tardiamente), por aqui também. Quando Ancelloti defende a convocação de Luís Henrique, visto por muitos como "incovocável" por jogar no Zenit, da Rússia, argumentando como as características físicas e técnicas do jogador podem ser úteis ao plano de jogo e sequer mencionando seu rendimento no clube, sem querer, o treinador coloca o Brasil no Século XXI, apresentando um projeto de futebol para o time.
Voltando aos laterais, nem Vanderson, nem Wesley, nem Caio Henrique, nem Douglas Santos e nem ninguém da posição fez por merecer grande destaque no velho continente, e talvez jamais façam, mas isso não quer dizer que não possam cumprir bem as funções específicas do esquema de jogo de Ancelloti e resolver problemas crônicos do time. Chegou a hora da Seleção parar de esperar surgirem talentos e começar ela mesma a criar seus próprios talentos!




