
Resenha do Bairro — Por Sérgio Nascimento
2026 tem sido um ano complicado para o Botafogo.
Com nove meses de temporada já avançados, o clube acumula eliminações no Campeonato Carioca, na Libertadores, na Copa Sul-Americana e na Copa do Brasil — muitas delas de formas vexatórias. No Campeonato Brasileiro, o time ocupa o meio da tabela, cinco pontos à frente do clube que abre a zona de rebaixamento e dez atrás do último colocado na zona de classificação para a Libertadores.
Sem comando definido, tanto no futebol quanto na administração, o Botafogo parece ter adotado um novo planejamento: ter planos para não ter planos.
AssociaSaf
“O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol.”
Eclesiastes 1.9
A história sempre se repete no Botafogo. Talvez porque não conheçamos — ou não aprendamos — com a nossa própria história.
Depois de 21 anos sem uma conquista, na década de 1980 surgiu Emil Pinheiro. Empresário ligado ao jogo do bicho, Emil colocou muito dinheiro no clube e viveu seu auge em 1989, quando o Botafogo finalmente conquistou o tão esperado Campeonato Carioca.
O ciclo, porém, começou a ruir em 1992.
Naquele ano, o Botafogo chegou ao vice-campeonato brasileiro, perdido para um time considerado, teoricamente, inferior. Em meio às disputas políticas, as forças internas do clube retiraram de Emil Pinheiro o controle administrativo.
Começava ali mais um período de instabilidade.
A saída de Emil deixou o Botafogo praticamente em terra arrasada. O empresário levou consigo grande parte dos jogadores, restando apenas dois profissionais no elenco. O clube precisou recorrer às categorias de base e a atletas emprestados para montar um time.
Para comandar aquela verdadeira balbúrdia, Carlos Alberto Torres aceitou o convite de Montenegro.
E aquilo que tinha tudo para dar errado acabou dando certo.
Em 1993, o Botafogo conquistou seu primeiro título internacional, a Copa Conmebol. No Campeonato Brasileiro daquele mesmo ano, por pouco não foi rebaixado — o regulamento da competição, porém, não previa descenso.
No ano seguinte, o clube retornou à sede de General Severiano, vendida na década de 1970, durante um dos períodos mais sombrios da história política brasileira.
Em 1995, veio o título brasileiro.
E, novamente, parecia que uma nova era começaria.
Mas não começou.
Em 1999, o Botafogo perdeu a Copa do Brasil para o Juventude, diante de um Maracanã lotado. A derrota marcou o início de mais um período de profunda depressão esportiva.
Nos 20 anos seguintes, foram apenas três títulos estaduais e três rebaixamentos.
O ciclo se repete
Em 2022, chegou ao Botafogo o empresário americano John Textor.
Em quatro anos, o clube viveu momentos extremos.
Em 2023, perdeu um Campeonato Brasileiro que parecia praticamente ganho. O Botafogo terminou o primeiro turno com uma pontuação recorde e tinha uma vantagem enorme sobre os concorrentes. Bastava vencer cinco dos 19 jogos restantes para conquistar o título.
Não conseguiu.
A frustração foi gigantesca para uma torcida acostumada a sofrer.
Mas 2024 trouxe a resposta.
O Botafogo conquistou o Campeonato Brasileiro e, pela primeira vez em sua história, a Libertadores da América.
O torcedor alvinegro finalmente teve o direito de comemorar uma temporada histórica.
Quando todos imaginavam que o avião finalmente havia decolado, veio a turbulência.
A queda de Textor
John Textor foi afastado do comando da SAF do Botafogo em 23 de abril de 2026, após ser destituído e afastado como membro do quadro societário por questões relacionadas à governança corporativa.
O empresário deixou o clube em meio a uma grave crise administrativa e com dez transfer bans impostos pela FIFA.
E, então, surge novamente o social.
O que havia de positivo na gestão Textor, especialmente na percepção de boa parte da torcida, eram as escolhas profissionais, os investimentos em estrutura e a tentativa de modernização do futebol.
O que se apresenta agora é justamente o oposto.
O comando administrativo, liderado por João Paulo Magalhães Lins, afirma atuar de maneira transitória enquanto aguarda a assinatura do contrato com a GDA Luma.
Nesse processo, Lins demitiu Franclim Carvalho e, até o momento, não apresentou um substituto definitivo para o comando técnico.
Para enfrentar os clubes do chamado TOP 3 do Campeonato Brasileiro, a solução encontrada foi colocar Rodrigo Bellão, treinador da base e responsável pelo desenvolvimento de jogadores, à frente da equipe.
A decisão, no mínimo, gera questionamentos.
Colocar um profissional ainda em formação diante de uma sequência de adversários de enorme dificuldade parece mais uma aposta de alto risco do que um planejamento esportivo.
Além disso, foram contratados integrantes para a comissão técnica e para o departamento administrativo do futebol. O critério utilizado para algumas dessas escolhas também passou a ser questionado por torcedores e setores da imprensa.
“Estava faltando cabelo branco”
O presidente do clube social do Botafogo, João Paulo Magalhães Lins, justificou publicamente a reestruturação e as novas contratações do departamento de futebol, incluindo o novo gerente, Thiago Alves, e integrantes das comissões, afirmando que “estava faltando cabelo branco” na SAF alvinegra.
Segundo o dirigente, o momento de transição e crise exigia profissionais experientes no futebol brasileiro, capazes de “organizar a casa” durante o processo de recuperação judicial e a transição para a nova gestão da GDA Luma.
A experiência é importante.
Mas experiência, sozinha, não resolve problemas de gestão.
É preciso planejamento, transparência, profissionalismo e, principalmente, respeito à instituição e ao torcedor.
O amadorismo que incomoda
Mesmo contando com toda a estrutura da Botafogo TV, o presidente decidiu comunicar à torcida e à imprensa algumas das mudanças por meio de um áudio de WhatsApp.
Nada mais simbólico de um clube que atravessa uma crise de identidade administrativa.
O dirigente também passou a confrontar publicamente setores da imprensa esportiva que acompanham o Botafogo, além da chamada MIB — mídia independente do Botafogo — e parte da própria torcida.
As críticas fazem parte do futebol.
Um dirigente pode discordar da imprensa. Pode discordar da torcida. Pode defender suas decisões.
Mas quando a resposta às críticas passa a ser o confronto permanente, o problema deixa de ser apenas administrativo e começa a se transformar em uma crise de relacionamento com quem deveria estar ao lado do clube.
João Paulo conduziu bem o processo de afastamento de Textor.
Esse mérito precisa ser reconhecido.
Mas parece que, depois de experimentar o poder, a “mosquinha” o mordeu.
E o doce sabor da vaidade pode estar cegando o dirigente.
E quem paga a conta?
O torcedor.
É ele quem não sabe o que acontecerá amanhã.
É ele quem olha para o elenco e não sabe quem estará no comando na próxima semana.
É ele quem acompanha as disputas políticas, as mudanças administrativas, as indefinições e as notícias sobre dívidas e punições.
E é ele quem teme que a história volte a se repetir.
Porque a história do Botafogo mostra que, quando a política interna se sobrepõe ao futebol, quem paga a conta é o clube.
E quando o clube sofre, a torcida sofre junto.
O fantasma do rebaixamento voltou a rondar General Severiano.
Não porque o Botafogo esteja necessariamente condenado a cair, mas porque a margem para erros ficou perigosamente pequena.
Música da semana 🎵
“We Don't Need Another Hero (Thunderdome)”, um dos maiores clássicos da carreira de Tina Turner, lançado em 1985, é a música da semana da Resenha do Bairro.
A escolha não é por acaso.
O Botafogo não precisa de mais um herói.
Precisa de gestão, planejamento, profissionalismo e estabilidade.
Próximo desafio
O Botafogo recebe o Palmeiras pela 26ª rodada do Campeonato Brasileiro.
O clube precisa somar 15 pontos para afastar de vez o risco de queda.
Se em 2023 eram necessários 15 pontos para buscar o título, agora, em 2026, o número ganha outro significado: são 15 pontos para garantir a permanência.
O Botafogo sempre se levanta.
A questão é: quem estará disposto a levantar o clube desta vez?
Porque o torcedor alvinegro já mostrou que sabe sofrer.
Agora, ele quer apenas uma coisa:
voltar a acreditar.
Resenha do Bairro
Sérgio Nascimento
Imagem: ChatGPT




