
Por Sérgio Nascimento | Resenha do Bairro
O futebol nos proporciona grandes histórias, daquelas que acontecem dentro e fora das quatro linhas. A trajetória de Tiquinho Soares com o Botafogo certamente é uma delas.
O atacante tem histórias nas duas esferas. Chegou ao Glorioso em 2022, tornou-se ídolo, viveu momentos de extrema felicidade, enfrentou a dor pela perda do pai, viu seu rendimento cair, deixou o clube e agora está de volta.
E o dia já vem raiando, meu bem. Tiquinho Soares está de volta ao Glorioso.
A primeira vinda
Contratado na segunda janela de 2022, em uma operação que fazia parte do novo modelo de recrutamento do Botafogo, Tiquinho Soares chegou ao clube depois de uma história que teve um ingrediente especial: o pedido de seu pai.
Em entrevista à Botafogo TV, o atacante revelou que, naquele momento, não tinha interesse em retornar ao futebol brasileiro.
Depois de muitos anos atuando na Europa, já estava adaptado ao futebol internacional.
Em Portugal, foram cinco temporadas, com passagens por Nacional, Vitória de Guimarães e Porto, onde ganhou grande destaque. Em 2020, transferiu-se para o futebol chinês, onde teve uma breve passagem pelo Tianjin Jinmen Tiger. No ano seguinte, retornou ao futebol europeu para defender o Olympiacos.
Até que veio o pedido de seu pai, José Nilton Soares.
Na época, com poucas transmissões dos campeonatos Português, Chinês e Grego no Brasil, seu pai tinha dificuldades para acompanhar os jogos do filho.
O pedido foi direto:
"Filho, eu não estou conseguindo ver os seus jogos. Volte para o Brasil."
O Botafogo apareceu no caminho.
O então técnico Luís Castro havia dispensado Erison, atacante contratado ao Brasil de Pelotas e que havia ganhado espaço no elenco, mas que não apresentava, segundo a avaliação da comissão técnica, as características físicas e técnicas desejadas para o modelo de jogo.
Tiquinho entendeu que era hora de voltar.
E, desta vez, o retorno ao Brasil tinha um significado ainda maior: realizar o desejo de seu pai de acompanhar de perto os jogos do filho.
Nos braços da torcida

John Textor, então proprietário da SAF do Botafogo, comunicou ao presidente do clube associativo, Durcesio de Mello, que estava contratando um centroavante.
A resposta, em tom de brincadeira, teria sido:
"Quem é Tiquinho? Um atacante com esse nome?"
Textor respondeu:
"Se você não conhece o Tiquinho, não sabe nada de futebol."
Naquele momento, nem Durcesio, nem nós, torcedores, poderíamos imaginar o tamanho da história que começaria a ser construída.
O Botafogo precisava de um jogador de referência. Alguém que pudesse vestir a camisa, representar o clube e se tornar a cara de uma nova geração.
Duas partidas depois da estreia, veio o primeiro gol.
No Nilton Santos, contra o Coritiba, Tiquinho marcou na vitória por 2 a 0.
Mas o casamento definitivo com a torcida aconteceu no Morumbi.
Contra o São Paulo, já nos minutos finais, o Botafogo teve um pênalti. Tiquinho assumiu a responsabilidade, bateu e garantiu a vitória por 1 a 0.
Na saída do estádio, os torcedores alvinegros começaram a cantar "Está Chegando a Hora", de Henricão e Rubens Campos.
A adaptação surgiu naturalmente:
"Tiquinho Soares é fo#@!"
Estava criado um dos grandes hits da torcida alvinegra.
O declínio
O pedido de seu pai, anos depois, ganharia um significado ainda mais doloroso.
José Nilton ainda conseguiu acompanhar o filho em grande fase. Tiquinho era o artilheiro do Botafogo, o time liderava o Campeonato Brasileiro com folga e havia estabelecido o recorde de pontos no primeiro turno da era dos pontos corridos.
Mas a vida cobrava seu preço.
Seu pai foi diagnosticado com câncer.
Tiquinho passou a dividir sua rotina entre o futebol e o hospital. Dormia ao lado do pai, treinava pela manhã no Lonier e retornava à tarde para ficar novamente ao lado de seu melhor amigo.
Dentro de campo, seu rendimento caiu.
E o Botafogo também caiu.
O título brasileiro, que parecia cada vez mais próximo, escapou de maneira dramática.
Na partida contra o Palmeiras, quando o Botafogo vencia por 3 a 1, Tiquinho teve a oportunidade de marcar em uma cobrança de pênalti, mas desperdiçou.
O Palmeiras virou para 4 a 3.
A torcida rival aproveitou o momento e adaptou a música:
"Tiquinho Soares pipoca."
Uma ferida aberta em uma temporada que terminou de maneira dolorosa.
Em 14 de junho de 2024, José Nilton Soares faleceu.
Com ele, parecia ter ido embora também uma parte da alegria de Tiquinho.
Mesmo assim, o atacante ainda proporcionou momentos inesquecíveis ao torcedor. Marcou contra o Palmeiras no Nilton Santos e diante do Criciúma, no Maracanã, gols que provocaram verdadeiros delírios coletivos nas arquibancadas.
Campeão do Brasileirão e da Libertadores, a titularidade, entretanto, já não era mais garantida.
Tiquinho perdeu espaço em um elenco que passou a reunir cada vez mais estrelas.
Mas havia uma diferença:
no coração do torcedor, ele continuava titular absoluto.
A chegada ao Botafogo
O Olympiacos disputava os playoffs da Europa League e ainda precisava do atacante. A negociação com o Botafogo previa que Tiquinho fosse liberado após os jogos classificatórios, por cerca de € 1 milhão.
Na partida de despedida, contra o Slovan Bratislava, porém, o atacante acabou deixando o campo durante a prorrogação após sofrer uma lesão.
O Botafogo esperou pela recuperação do jogador.
Em 4 de setembro de 2022, finalmente chegou o momento da estreia.
Tiquinho entrou em campo no Castelão, contra o Fortaleza. O Botafogo venceu por 3 a 1.
E, naquele dia, José Nilton Soares, que morava em Sousa, na Paraíba, pôde realizar o desejo de ver o filho atuando em uma partida do Campeonato Brasileiro.
A saída e a volta para casa
Em 2025, Tiquinho foi negociado com o Santos. Pelo clube paulista, disputou 40 partidas e teve 11 participações diretas em gols.
Em 2026, foi emprestado ao Mirassol. Foram 10 jogos e apenas um gol.
O momento era outro.
O centroavante que um dia havia sido protagonista no Botafogo estava em baixa.
Até que surgiu a oportunidade de voltar.
Voltar para o lugar onde foi amado.
Voltar para onde fez gols.
Voltar para onde construiu sua história.
Voltar para casa.
Quatro meses para escrever o último capítulo?
O retorno ao Botafogo acontece com um contrato de quatro meses e um salário abaixo dos valores praticados pelo mercado.
Mas, para Tiquinho, talvez o dinheiro não seja o mais importante.
O atacante sonha em se despedir do futebol vestindo novamente a camisa alvinegra.
E o torcedor também parece querer assistir ao último capítulo dessa história.
Não será apenas o retorno de um centroavante.
Será o reencontro de um ídolo com a torcida que o abraçou, que cantou seu nome, que sofreu com ele e que nunca deixou de guardar carinho por sua trajetória.
Tiquinho Soares está de volta.
Ao Glorioso.
À casa onde foi feliz.
À camisa que transformou seu nome em canto de arquibancada.
E, como diz a música:
"O dia já vem raiando, meu bem."
Todos nós sabemos que Tiquinho Soares é bravo.




