Os 51 meses de SAF do Botafogo e os fantasmas que insistem em assombrar o botafoguense – Parte 2

Os 51 meses de SAF do Botafogo e os fantasmas que insistem em assombrar o botafoguense – Parte 2

Franclim Carvalho treinador do Botafogo.

Resenha do Bairro por Sérgio Nascimento

Uma das grandes preocupações do torcedor alvinegro, antes da implementação da SAF, era a constante troca de treinadores. O Botafogo não conseguia dar sequência aos trabalhos. O pior período administrativo ocorreu entre 2020 e 2021. Em meio à pandemia da Covid-19, o calendário foi remanejado e o clube registrou a marca negativa de seis treinadores em uma única temporada.

Em fevereiro de 2022, John Textor veio ao Brasil para selar o contrato vinculante de compra de 80% da SAF, além de outros 10% em garantia, caso o Botafogo não conseguisse cumprir o aporte inicial previsto.

Aproveitando a viagem, o empresário americano acompanhou, no dia 11 de fevereiro, o clássico entre Botafogo e Fluminense, válido pelo Campeonato Carioca. O Tricolor venceu por 2 a 1. Textor não gostou do que viu e informou à imprensa a demissão do técnico Enderson Moreira, que soube da decisão enquanto concedia entrevista coletiva após a partida.

Ali, Textor demonstrava um de seus maiores defeitos: encerrar projetos sem possuir um plano B já definido.

O treinador interino Lúcio Flávio comandou a equipe até as semifinais do Estadual, quando foi eliminado pelo Fluminense. Após perder o primeiro jogo por 1 a 0, no Nilton Santos, o Botafogo venceu a segunda partida por 2 a 1, marcou o gol da classificação aos 45 minutos do segundo tempo, mas sofreu o gol da eliminação aos 51.

Era evidente que Lúcio Flávio não estaria à frente do grande projeto idealizado por Textor. Um mês e dezoito dias após a demissão de Enderson Moreira, o técnico português Luís Castro foi apresentado no Estádio Nilton Santos.

Logo em sua chegada, Castro criticou a estrutura do clube, que realmente era precária. O time treinava no campo anexo ao estádio principal, tradicionalmente marcado por problemas no gramado. O treinador teve papel fundamental na reestruturação e otimização dos espaços disponíveis.

Durante sua passagem, o gramado sintético foi implantado no Nilton Santos e diversas melhorias foram realizadas no Espaço Lonier. Em apenas cinco meses, o Botafogo recuperou anos de atraso, legado de administrações anteriores que negligenciaram investimentos em um centro de treinamento, algo que todos os seus principais concorrentes cariocas já possuíam.

No Campeonato Brasileiro de 2022, o Botafogo terminou na 11ª colocação, com 53 pontos, apenas dois a menos que o último classificado para a Libertadores de 2023.

O ano de 2023 começou após um Campeonato Carioca que apresentou mais dificuldades do que o esperado. A torcida pedia a demissão de Luís Castro, mas, dessa vez, Textor mostrou uma de suas virtudes: não cedeu à histeria coletiva e manteve sua convicção no trabalho do treinador.

No Brasileirão, o Botafogo realizou o melhor primeiro turno da história dos pontos corridos. Sob o comando de Castro, a equipe disputou 12 partidas, conquistando 30 pontos, com dez vitórias e apenas duas derrotas.

Entretanto, a convite de seu compatriota Cristiano Ronaldo, Luís Castro deixou o clube para assumir o Al Nassr, da Arábia Saudita.

Sua despedida ocorreu em 29 de junho, justamente na partida que marcou a aposentadoria de Joel Carli. Ao tentar justificar sua saída, Castro assumiu o protagonismo negativo ao defender a narrativa de que "quem pagasse mais levaria". A declaração revoltou grande parte da torcida.

Quinze dias depois, Bruno Lage foi apresentado. Durante o período de transição, o time foi comandado por Cláudio Caçapa, auxiliar técnico do Lyon, clube adquirido por Textor naquele mesmo ano para integrar sua rede multiclubes, composta ainda por Botafogo, RWD Molenbeek, da Bélgica, e Lyon, da França. Textor também possuía participação minoritária no Crystal Palace, da Inglaterra.

Ao lado de Lúcio Flávio, então responsável pelo projeto sub-23, Caçapa venceu três partidas no Campeonato Brasileiro — contra Grêmio, Red Bull Bragantino e Vasco — além de uma vitória sobre o Patronato, pela Copa Sul-Americana, na Argentina.

Após apresentar Bruno Lage no Rio de Janeiro, Textor viajou para a Argentina e acompanhou, das arquibancadas, a vitória alvinegra ao lado dos torcedores que enfrentaram chuva e um gramado cheio de buracos, remendado com areia retirada das proximidades do estádio. Futebol raiz.

Três meses depois, acumulando 16 jogos, cinco vitórias, sete empates e quatro derrotas, Bruno Lage vivia forte pressão. Somava-se a isso o fato de que o treinador nunca pareceu totalmente comprometido com o projeto. Seu filho havia nascido recentemente em Portugal e existia a promessa de que, ao término de seu contrato, ele assumiria o Lyon.

Após a derrota para o Flamengo, no Nilton Santos, Lage pediu demissão em entrevista coletiva. Convencido a permanecer, ainda comandou a equipe por mais quatro partidas.

Seu último jogo foi diante do Goiás, no Nilton Santos. A torcida preparava uma grande homenagem para Tiquinho Soares, o chamado "Tiquinho Day". Em uma decisão interpretada por muitos como provocação, o treinador deixou o atacante no banco.

Quando o Goiás terminou o primeiro tempo vencendo por 1 a 0, Lage colocou Tiquinho em campo. Na primeira bola, gol do Botafogo. Gol de Tiquinho Soares, que explodiu em comemoração.

Pouco depois, o treinador foi demitido.

Lúcio Flávio assumiu a equipe, agora efetivado como técnico principal. A torcida renovou as esperanças. O Botafogo precisava de apenas cinco vitórias para conquistar o título brasileiro.

A ilusão ganhou força após as vitórias sobre América Mineiro e Fluminense, ambas fora de casa. Porém, o primeiro jogo em casa marcou o início da derrocada.

Na fatídica noite de 1º de novembro, véspera do Dia de Finados, o Botafogo realizou um primeiro tempo histórico e foi para o intervalo vencendo o Palmeiras por 3 a 0.

Naquele momento, parecia impossível imaginar outro desfecho. O campeão parecia estar em campo.

Mas o Palmeiras reagiu e venceu por 4 a 3, iniciando uma sequência de derrotas e empates que culminaria na perda do título.

Entre os episódios marcantes, destaca-se o jogo contra o Grêmio. Luis Suárez possuía cláusula contratual que restringia atuações em gramados sintéticos. Como o Nilton Santos receberia um show na mesma semana, a partida foi transferida para São Januário. A equipe da Resenha esteve presente para assistir ao "show" do uruguaio, autor de três gols na virada gremista por 4 a 3, após o Botafogo abrir 3 a 1.

Outro episódio curioso ocorreu diante do Athletico Paranaense. Após o empate da equipe visitante, as luzes do estádio se apagaram durante um show de drones. A partida foi concluída apenas no dia seguinte. Sem orientação adequada para os 15 minutos restantes, o inexperiente Lúcio Flávio viu o adversário administrar o resultado e levar um ponto para casa.

Posteriormente, a partida contra o Fortaleza precisou ser adiada por questões de regulamento, prejudicando ainda mais a sequência alvinegra.

Após o empate com o Red Bull Bragantino, Lúcio Flávio foi demitido. Em 13 jogos, acumulou quatro vitórias, dois empates e sete derrotas.

Seu substituto foi Tiago Nunes. O treinador já chegou pressionado, sem ser uma escolha pessoal de John Textor. Nos cinco jogos restantes do Campeonato Brasileiro, empatou quatro e perdeu um, justamente para o Internacional, no Beira-Rio.

O ano, que começou de forma promissora, terminou em enorme decepção. O Botafogo encerrou a competição na quinta colocação, com 64 pontos, garantindo vaga na Pré-Libertadores.

Luís Castro deixou a equipe com 30 pontos em 12 jogos. Nos 26 jogos restantes, o conjunto de treinadores somou apenas 34 pontos. O desempenho do segundo turno foi equivalente ao de equipes rebaixadas.

Em 2024, Tiago Nunes começou mal o Campeonato Carioca, empatou a estreia na Libertadores contra o Aurora e acabou demitido em 22 de fevereiro.

Seu substituto, Artur Jorge, chegou ao clube no dia 3 de abril, 41 dias após a saída de Nunes.

Em apenas oito meses, Artur Jorge conquistou o Campeonato Brasileiro e a inédita Libertadores, deixando o clube logo depois para trabalhar no Catar.

Entre a saída de Artur Jorge e a chegada de seu substituto, passaram-se 55 dias sem treinador efetivo. Nesse período, a equipe foi comandada por Carlos Leiria e pelo reintegrado Cláudio Caçapa.

O Botafogo acabou perdendo os títulos da Recopa Sul-Americana e da Supercopa do Brasil, resultados que geraram grandes prejuízos esportivos e financeiros.

Renato Paiva chegou ao clube em 27 de fevereiro. Sob seu comando, o Botafogo viveu momentos marcantes, como as vitórias sobre o PSG, no Mundial de Clubes, e sobre o Estudiantes, no Nilton Santos.

No entanto, apenas quatro meses depois, acabou demitido após a eliminação para o Palmeiras no Mundial. Uma semana antes, John Textor havia lhe dado um beijo no rosto diante das câmeras. Dias depois, veio a demissão. Seria esse o "beijo da morte"?

Davide Ancelotti chegou ao clube oito dias após a saída do treinador português. Durante sua passagem, foi eliminado pela LDU, na Libertadores, e pelo Vasco, na Copa do Brasil. Ainda assim, classificou o clube para a Pré-Libertadores. Cinco meses depois de sua contratação, acabou demitido.

Martín Anselmi iniciou a temporada seguinte, contratado em dezembro. Permaneceu apenas três meses no cargo. A eliminação precoce na Libertadores pesou decisivamente, principalmente pelo impacto financeiro causado.

Seu período também foi marcado por turbulências administrativas, afastamento de Textor e transfer ban. Em 18 jogos, perdeu o controle do elenco.

Onze dias depois, Franclim Carvalho assumiu o comando técnico. Atualmente, o Botafogo ocupa a 12ª colocação no Campeonato Brasileiro e encerrou a fase de grupos da Copa Sul-Americana na liderança isolada do Grupo E, garantindo a melhor campanha geral da competição continental.

Na Copa do Brasil, porém, a equipe foi eliminada pela Chapecoense. Além disso, o clube vive instabilidade na posição de goleiro, sem que nenhum atleta tenha conseguido se firmar como titular.

Ao longo desses 51 meses de SAF, o Botafogo alternou momentos históricos e conquistas inéditas com decisões administrativas questionáveis, especialmente no que diz respeito à gestão de treinadores.

Afinal, após 51 meses, a SAF é uma boa ideia?

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