
Por Sérgio Nascimento – Resenha do Bairro
Muitas foram as aflições vividas pelo torcedor alvinegro ao longo das últimas décadas. Entretanto, o Projeto de Lei da SAF (Sociedade Anônima do Futebol), criado em 2019 pelo senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), trouxe uma nova esperança. A expectativa era de que os problemas do passado finalmente chegassem ao fim após a aprovação da lei e a assinatura do contrato da SAF.
Voltemos ao ano de 1992. Emil Pinheiro, conhecido banqueiro do jogo do bicho, era o presidente do Botafogo. Com recursos praticamente ilimitados, montou um elenco estrelado, contratando jogadores em alta no cenário nacional. O principal nome daquela equipe era Renato Gaúcho, campeão mundial pelo Grêmio em 1983 e presença constante nas convocações da Seleção Brasileira, inclusive integrando a delegação da Copa do Mundo de 1990.
O Botafogo chegava como favorito para a decisão do Campeonato Brasileiro diante do Flamengo, que alcançou a final aos trancos e barrancos, com uma equipe repleta de jovens oriundos das categorias de base e liderada pelo veterano Júnior. No entanto, o Glorioso foi derrotado por 3 a 0 na primeira partida da final. Após a decisão, Renato Gaúcho deixou o clube e, pouco tempo depois, Emil Pinheiro também se afastou, retirando seus investimentos.
Classificado para a Copa Conmebol do ano seguinte, o Botafogo enfrentava uma grave crise financeira e sequer possuía elenco suficiente para disputar a competição internacional. A solução foi apostar nas chamadas "Joias do Bairro" e buscar reforços sem espaço em outros clubes, como os atacantes Eliel e Eraldo, cedidos pelo São Paulo. Aquela equipe, desacreditada, acabou conquistando o primeiro título internacional da história do clube.
Um salto no tempo nos leva ao Campeonato Brasileiro de 1995. Mesmo durante a campanha do título nacional, o Botafogo chegou a acumular cerca de seis meses de salários atrasados. A empresa patrocinadora precisou assumir os vencimentos de Túlio Maravilha, principal estrela da equipe, e, após acordos, parte dos salários do restante do elenco também foi quitada. Ao final da temporada, vários jogadores foram negociados e a situação financeira do clube continuou se deteriorando.
O loop temporal parecia se repetir.
Após as conquistas da Libertadores e do Campeonato Brasileiro, o ano de 2025 surgia como a temporada de consolidação do projeto esportivo. Com as premiações acumuladas e a participação no primeiro Mundial de Clubes, a expectativa era de superávit financeiro. Contudo, o administrador da SAF optou por direcionar grande parte dos recursos para socorrer o Lyon.
Em julho, após a Copa do Mundo, John Textor foi afastado do grupo Eagle Football, perdendo o controle sobre a gestão e os recursos do Botafogo. Começava, assim, um novo período de incertezas, reacendendo fantasmas que muitos torcedores acreditavam ter ficado definitivamente no passado.
Em dezembro de 2025, o clube recebeu seu primeiro transfer ban. A MLS cobrava valores referentes à negociação de Thiago Almada. O jogador havia sido transferido para o Lyon em janeiro de 2025 e, posteriormente, vendido ao Atlético de Madrid em julho do mesmo ano. Como consequência, o Botafogo foi impedido de atuar no mercado por três janelas de transferências.
Em fevereiro, Textor anunciou a entrada da GDA Luma como nova investidora, numa tentativa de amenizar a crise financeira. Inicialmente, cerca de 25 milhões de dólares ingressaram nos cofres do clube. A dívida junto à MLS girava em torno de 20 milhões de dólares. O Botafogo quitou 10 milhões à vista e parcelou o restante em quatro parcelas de 5 milhões.
Parte dos recursos, entretanto, foi direcionada ao Molenbeek, clube pertencente ao grupo Eagle Football, na Bélgica. A operação acabou agravando a situação financeira: a dívida com a MLS aumentou e os compromissos com a GDA Luma chegaram a 50 milhões de dólares.
Para piorar o cenário, a Justiça afastou Textor do controle administrativo do Botafogo. Durante as investigações, diversos problemas vieram à tona, incluindo contratos considerados prejudiciais ao clube.
Em meio à turbulência, o Botafogo negociou Igor Jesus, Cuiabano e Jair com o Nottingham Forest e recebeu Danilo, volante que retornava após um longo período afastado por lesão. O clube inglês, contudo, cobrava 22 milhões de euros pela transferência do jogador. Além disso, repasses referentes ao FGTS dos atletas não teriam sido efetuados aos órgãos competentes.
Diante do agravamento da crise, o Botafogo entrou com pedido de recuperação judicial e sofreu a imposição de outros seis transfer bans.
As dificuldades também atingiram o departamento de futebol. Notícias indicavam negociações entre o técnico Franclim Carvalho e o Vasco. Segundo pessoas ligadas ao treinador, a insegurança administrativa e financeira do clube permitiria a abertura de conversas com outras equipes. O Vasco, inclusive, estaria disposto a pagar a multa rescisória.
O futuro glorioso ainda é incerto. E a pergunta permanece:
Após 51 meses de SAF, ela realmente é uma boa ideia?
Foto Júlio César Guimarães/O Globo




